“Foi já depois da atribuição do Nobel, em Lanzarote (repetia-se o mesmo cenário: mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia - e uma janela voltada para o mar) que pude perceber o trabalho que acompanhou a escrita de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (que, juntamente com “Memorial do Convento” e “Ensaio sobre a Cegueira” constitui uma espécie de “trilogia do cânone”): uma agenda, dessas, antigas, domésticas, que Saramago tinha transformado num diário de Ricardo Reis escrito em Lisboa depois de regressar do Brasil, e que funcionaria como uma espécie de “segundo livro” que reuniria a parte estritamente documental do romance. Tudo tinha sido ali anotado, desde o preço do tabaco no Alentejo naquele ano, até à menção das crises diplomáticas que varriam a Europa e anunciavam o fascismo. ”
“O que passa à eternidade é o talento, o trabalho e dedicação” por Francisco José Viegas, publicado no i a 19 de Junho de 2010, aquando da morte de José Saramago