RSS

actoúnico

July 3, 2010

14:09

“Neste contexto, o lendário sistema de escrita a lápis de Walser surge como um exercício preparatóroio para a vida na clandestinidade. Os ‘microgramas’ [..] são, enquanto forma engenhosa para conseguir continuar a escrever, [..] fragmentos de uma verdadeira emigração interior. [..] Walser, como ele próprio esclarece numa carta a Maz Rychner, ao recorrer à escrita a lápis, menos definitiva, pretende sobretudo vencer as suas inibições; e é também certo, como observa Werner Morlang, que procurava inconscietemente pôr-se ao abrigo das instâncias públicas e interiorizadas da avaliação por meio dos seus sinais indecifráveis, arrumar-se sob o nível da linguagem e desaparecer de cena.”

robert walser microscript http://molossus.wordpress.com/2010/04/14/the-prodigal-son-a-microscript-by-robert-walser/

sobre o território do lápis

“‘Vêm’, dizia Benjamin, ‘da loucura e só da loucura. São figuras que deitaram a loucura para trás das costas e que por isso se quedaram numa superficialidade dilacerante, absolutamente desumana e inabalável. Se quiséssemos resumir numa palavra o que elas têm de agradável e de sinistro, poderíamos dizer: estão todas curadas‘”

W.G. Sebald sobre Robert Walser

(o lápis como abrigo do desaparecimento)

June 22, 2010

09:15

Maria Gabriela Llansol em Herbais, anos 80


“Eu estou a meio caminho entre o interior e o exterior e o que devo contar, para ser compreensível,
é como se torna efectiva uma das hipóteses da passagem.
[..]
Em Herbais, só há a época de Herbais, o tempo é o actual, e a realidade não tem espessura, foi abandonada pelas cenas fulgor que eram o seu volume.”

Falcão no Punho, Maria Gabriela Llansol


(a voz de llansol)

June 19, 2010

21:06

“Foi já depois da atribuição do Nobel, em Lanzarote (repetia-se o mesmo cenário: mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia - e uma janela voltada para o mar) que pude perceber o trabalho que acompanhou a escrita de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (que, juntamente com “Memorial do Convento” e “Ensaio sobre a Cegueira” constitui uma espécie de “trilogia do cânone”): uma agenda, dessas, antigas, domésticas, que Saramago tinha transformado num diário de Ricardo Reis escrito em Lisboa depois de regressar do Brasil, e que funcionaria como uma espécie de “segundo livro” que reuniria a parte estritamente documental do romance. Tudo tinha sido ali anotado, desde o preço do tabaco no Alentejo naquele ano, até à menção das crises diplomáticas que varriam a Europa e anunciavam o fascismo. ”

O que passa à eternidade é o talento, o trabalho e dedicação” por Francisco José Viegas, publicado no i a 19 de Junho de 2010, aquando da morte de José Saramago

December 29, 2009

05:49

the repose of broken dolls - sans soleil by chris markerThere is a ceremony for brushes, for abacuses, and even for rusty needles. There’s one on the 25th of September for the repose of the soul of broken dolls. The dolls are piled up in the temple of Kiyomitsu consecrated to Kannon—the goddess of compassion—and are burned in public.

- from Sans Soleil by Chris Marker

July 7, 2009

02:25

(Uma última consideração. Se permaneceres muito tempo prestes a dar o último passo em direcção à verdade, paciente, esperando, ou seja: prestes a. Se muito tempo permaneceres assim, quando finalmente agires o último passo não será o último, mas sim o primeiro, pois tanto tempo passou que todos os outros passos foram esquecidos. E tudo recomeça.
Dirás então: é necessário memória. Direi: é necessário coragem.)

em Breves notas sobre as ligações de Gonçalo M. Tavares

visto na trama

June 24, 2009

06:28

ontem, olhou a casa. pensou como ainda assim era o sítio em que mais tinha sido feliz. à excepção da infância. mas na infância não sabemos nada e é fácil ser feliz. aquela casa, por mais invadida que estivesse pela sua tristeza, era ainda sua. era ainda o sítio onde mais queria estar, onde mais era.

às vezes olhava para ela e sentia-a anónima, sentia que qualquer pessoa poderia viver ali. outra pessoa poderia ser a dona daquela casa, noutro local, noutro tempo.

quando dizia aquela casa era àquela casa a que se referia, não às paredes mas às fotos, aos livros que povoavam a estante, às caixas de música, às esculturas africanas da família. o anonimato que persistia naquela casa ligava-o à dispersão dos objectos, dos interesses, como se ainda assim nada daquilo a capturasse ainda, nada a identificasse ainda. porque sentia que escapava aos próprios objectos que possuía.

não sentia isso quando entrava na casa de amigas, de l. em particular, aí os objectos eram-na. via-se a sua paixão por escultura, os objectos de sua mãe, o seu lado meio hippie entretanto ultrapassado ainda visível nos objectos escondidos por entre os livros. as suas fotos na parede, tudo ali lhe dizia quem aquela pessoa era.

não sentia o mesmo em sua casa. as paredes brancas. o quadro abstracto. e no entanto, esse mesmo desconforto era-lhe confortável. era apenas assim que saberia existir. talvez porque ainda não tivesse assentado na sua própria identidade, como se a todo o momento ela lhe escapasse e um dia pudesse ser isto e outro dia aquilo - sentia que consoante os momentos e a afirmação anterior, outra oposta lhe faria sentido, como se apenas o oposto de algo pudesse enriquecer o primeiro, pudesse dar algo de novo. concordar era morrer em certo sentido.

constantemente tentava a complementariedade, experimentava fatos à procura de um encaixe e não se sentia encaixar em nada. ou antes, em tudo encaixava um pouco mas em nada completamente.

hoje sentia-se assim, como se nada coubesse na sua mão, como se nada conseguisse agarrar. às vezes, a saudade era aterradora. uma saudade também ela anónima, de algo que nunca tivera. apenas pressentia a sua presença. um futuro possível? um agora algures? não sabia. tentava concentrar-se em estar. respirar devia bastar.

[um excerto]

May 18, 2009

14:45

“O que é o mútuo? Começa por ser o que em tempos se chamava de ‘conversação espiritual’, mas desenvolvendo-se em relação textual, física (como se diz do acto de amor), cuja dinâmica ou sentido é a mutação das grandes narrativas (a que também chamamos problemáticas). Destes encontros cada participante sai modificado, e vê modificado o seu mal de amor, que é o nome do inconfortável que há no seu próprio pensamento. Este, o efeito específico da configuração singular de cada encontro que, atravessando os mitos e arquétipos que dão forma ao mundo, ao seu texto, os confirma na certeza inabalável de que o mútuo não é um acidente, um repetível arbitrário, mas o autêntico motor da mudança das narrativas e da metamorfose dos corações. Porque só isso passa, para voltar sempre mais próximo do amante. E assiste-se assim, em cada encontro, a um trabalho de poeta e de ladrão.”

sobre a narrativa de Maria Gabriela Llansol, por Augusto, em Finita

October 11, 2008

10:30

de Marguerite Duras em Escrever

10:29

A construção é uma continuidade através das rupturas. Estas, por vezes, são tão dolorosas e prolongadas que o construtor sente o seu fututo atraiçoado. Nesses momentos é o desespero que, paradoxalmente, sustenta o seu ânimo. A revolta torna-se nutritiva e estimulante porque agita o fundo das suas cinzas e aviva o lume quase apagado. [..] O tremor das mãos e a vivacidade dos olhos revelam que o espírito da obra é a liberdade activa do ser voltado para o futuro iminente e para o presente do seu próprio movimento inaugural.

de António Ramos Rosa em O Aprendiz Secreto

May 31, 2008

08:57

“Não é uma vergonha, não é uma humilhação? - dir-me-eis, abanando as cabeças com desprezo. - Anseia pela vida e resolve as questões da vida com uma confusão lógica. Que impertinentes, que atrevidos são os seus despropósitos e, ao mesmo tempo, que medo tem! Profere disparates e fica contente; diz coisas atrevidas mas, ao dizê-las, está com medo e pede desculpas. Insiste em que não tem medo de nada, e ao mesmo tempo, procura com adulação a nossa opinião. Quer convencer-nos que range os dentes e, ao mesmo tempo, solta piadas para nos fazer rir. Sabe que as suas piadas não têm graça, mas, pelos vistos, está muito contente com a qualidade literária delas. Talvez realmente, lhe tenha acontecido sofrer, mas não tem respeito nenhum pelo seu próprio sofrimento. Está até dentro de uma certa verdade, mas não tem pudor; pela mais mesquinha das vaidades leva a sua verdade até à exibição, até à ignomínia, até à venda na feira.. Quer realmente dizer qualquer coisa, mas esconde por medo a sua última palavra, porque não tem coragem de dizê-la, apenas alardeia um descaramento cobarde. Gaba-se da consciência mas apenas vacila, porque, embora o seu intelecto funcione, o seu coração está obcurecido [..]”

de Fiódor Dostoiévski em Cadernos do Subterrâneo

Archives

Categories