ontem, olhou a casa. pensou como ainda assim era o sítio em que mais tinha sido feliz. à excepção da infância. mas na infância não sabemos nada e é fácil ser feliz. aquela casa, por mais invadida que estivesse pela sua tristeza, era ainda sua. era ainda o sítio onde mais queria estar, onde mais era.
às vezes olhava para ela e sentia-a anónima, sentia que qualquer pessoa poderia viver ali. outra pessoa poderia ser a dona daquela casa, noutro local, noutro tempo.
quando dizia aquela casa era àquela casa a que se referia, não às paredes mas às fotos, aos livros que povoavam a estante, às caixas de música, às esculturas africanas da família. o anonimato que persistia naquela casa ligava-o à dispersão dos objectos, dos interesses, como se ainda assim nada daquilo a capturasse ainda, nada a identificasse ainda. porque sentia que escapava aos próprios objectos que possuía.
não sentia isso quando entrava na casa de amigas, de l. em particular, aí os objectos eram-na. via-se a sua paixão por escultura, os objectos de sua mãe, o seu lado meio hippie entretanto ultrapassado ainda visível nos objectos escondidos por entre os livros. as suas fotos na parede, tudo ali lhe dizia quem aquela pessoa era.
não sentia o mesmo em sua casa. as paredes brancas. o quadro abstracto. e no entanto, esse mesmo desconforto era-lhe confortável. era apenas assim que saberia existir. talvez porque ainda não tivesse assentado na sua própria identidade, como se a todo o momento ela lhe escapasse e um dia pudesse ser isto e outro dia aquilo - sentia que consoante os momentos e a afirmação anterior, outra oposta lhe faria sentido, como se apenas o oposto de algo pudesse enriquecer o primeiro, pudesse dar algo de novo. concordar era morrer em certo sentido.
constantemente tentava a complementariedade, experimentava fatos à procura de um encaixe e não se sentia encaixar em nada. ou antes, em tudo encaixava um pouco mas em nada completamente.
hoje sentia-se assim, como se nada coubesse na sua mão, como se nada conseguisse agarrar. às vezes, a saudade era aterradora. uma saudade também ela anónima, de algo que nunca tivera. apenas pressentia a sua presença. um futuro possível? um agora algures? não sabia. tentava concentrar-se em estar. respirar devia bastar.
[um excerto]