03:40
A ira,
tão preta como um gancho,
atinge-me.
Cada dia,
cada Nazi
tomava, às 8:00, um bebé
e salteava-o para o pequeno-almoço
na sua frigideira.
E a morte contempla com olhar casual
e tira o lixo das suas unhas.
O homem é perverso,
digo em voz alta.
O homem é uma flor
que deve ser queimada,
digo em voz alta.
O homem
é um pássaro cheio de lama,
digo em voz alta.
E a morte contempla com olhar casual
e coça o ânus.
O homem com seus pequenos dedos dos pés rosados,
com seus dedos milagreiros
não é um templo
mas um anexo,
digo em voz alta.
Que o homem nunca mais levante sua chávena de chá.
Que nunca mais escreva um livro.
Nunca mais calce seu sapato.
Nem erga mais os olhos
na noite macia de Julho.
Nunca.Nunca.Nunca.Nunca.Nunca.
Digo essas coisas em voz alta.
Peço ao Senhor que não ouça.
de Anne Sexton
(tradução J.T. Parreira)
versão original
11:35
A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.
E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.
de Paul Celan em A morte é uma flor - Poemas do Espólio
03:38
Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre cada palavra em que acreditaste.
de Paul Celan
12:59
“Naquela hora da noite conhecia esse grande susto de estar viva, tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. A vida era tão forte que se amparava no próprio desamparo.
de Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
08:10
“Queria dizer-lhe o que creio: é que será sempre necessário guardar no fundo do seu coração - aqui está, reencontro a palavra - um sítio, uma espécie de sítio pessoal, é isso, para lá ficar sozinho, e para amar. Para amar não se sabe o quê, nem quem nem como, nem por quanto tempo. Para amar, de repente dou-me conta de que todas as palavras me tornam a ocorrer… para guardar dentro de si o lugar da espera de um amor, de um amor talvez ainda sem ninguém, mas disto e somente disto, do amor.”
Marguerite Duras - C’est Tout