30 de Janeiro
sensação estranha de ter passado o dia a procurar-me no olhar de quem passa. ninguém deu por isso, absolutamente ninguém se apercebeu como perscrutei os rostos à espera de um sinal.
máscaras e mais máscaras cruzaram-se comigo, e não me encontrei por trás de nenhuma delas.
2 de fevereiro
é preciso continuar acordado e ter consciência disto, manter-me acordado para que nada se perca e tudo se transmude, mesmo que dolorosamente.
este medo secreto de endoidecer. ponho-me a amar aquilo que não amo, a vida parece fazer uma trégua, é menos cruel. acontece-me sempre assim: amar o que já não amo e dá-me sono, e sonho com aquilo que ainda não amei, durmo profundamente.
7 de fevereiro
[..] basta-me fechar os olhos ou desatar a escrever, ou simular que espero. o acto contínuo de esperar é-me suficiente para atravessar os dias que faltam.
finjo ser feliz, mas a felicidade também é perecível. o melhor é esperar e não simular nem felicidade nem desgosto. esperar, fazer da espera uma razão para estar. esperar que pare de chover e mais nada.
Al Berto, 1985
