18:09
pouco restou. uns lábios finos sobre a dor.
pouco mais.
posso acreditar na manhã
sobre o lençol. pouco mais.
que partirás. partirei. tanto faz.
já partimos.
houve outros corpos é certo. outras
palavras e outras mãos sobre as minhas.
mas não foram as tuas. e esse amor
que perdi, hoje estou de volta
à sua janela.
11:17
In Concluding Unscientific Postscript, which was to be Kierkegaard’s last work, he comments on Either/Or:
The book is an indirect polemic against speculative thought, which is indifferent to existence. That there is no conclusion and no final decision is an indirect expression for truth as inwardness and in this way perhaps a polemic against truth as knowledge.
10:37
Aos poucos habituou-se ao novo estado, acostumou-se a respirar, a viver. Aos poucos foi envelhecendo dentro de si, abriu os olhos e novamente era uma estátua, não mais plástica, porém definida. Bem longe renascia a inquietação. À noite, entre os lençóis, um movimento qualquer ou um pensamento inesperado acordava-a para si mesma. [..]
Os dias foram correndo e ela desejava achar-se mais. Chamava-se agora fortemente e não lhe bastava respirar. A felicidade apagava-a, apagava-a.. Já queria sentir-se de novo, mesmo com dor. Mas submergia cada vez mais. Amanhã, adiava, amanhã vou-me ver. O novo dia porém perspassava pela sua superfície, leve como uma tarde de estio, mal franzindo os seus nervos. [..]
Nunca terei pois uma diretriz, pensava meses depois de casada. Resvalo de uma verdade para outra, sempre esquecida da primeira, sempre insatisfeita.[..]
Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos da sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando circulos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Porque tão independentes, porque não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos não precisavam de passado nem de futuro para existir. Traziam um conhecimento que não servia como experiência - um conhecimento directo, mais como sensação que percepção. A verdade então descoberta era tão verdade que não podia subsistir senão no seu recipiente, no próprio facto que a provocara. Tão verdadeira, tão fatal, que vive apenas em função da sua matriz. Uma vez terminado o momento de vida, a verdade correspondente também se esgota. Não posso moldá-la, fazê-la inspirar outros instantes iguais. Nada pois me compromete.
de Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem
09:01
- Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia do meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a àgua escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio d’água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. e o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa.
de Clarice Lispector em A Paixão Segundo G.H.
17:24
Mas a sua busca não era fácil. Sua dificuldade em ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível.
[..]
“Se eu fosse eu” provocara um constrangimento: a mentira em que se havia acomodado acabava de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já lera biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida, pelo menos de vida interior. Lóri achava se ela fosse ela, os conhecidos não a cumprimentariam na rua porque até a sua fisionomia teria mudado. “Se eu fosse eu” parecia representar o maior perigo de viver, parecia a entrada nova do desconhecido.
No entanto, Lóri tinha a intuição de que, passadas as primeiras perturbações da festa íntima que haveria, ela teria enfim a experiência do mundo. Bem sabia, experimentaria enfim em pleno a dor do mundo. E a sua própria dor de criatura mortal, a dor que aprendera a não sentir. Mas também seria por vezes tomada de um êxtase de prazer puro e legítimo que ela mal podia adivinhar. Aliás já estava adivinhando porque se sentiu sorrindo e também sentiu uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande de mais. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la sabe Deus aonde. Ela se guardava. Por que e para quê? Para o que estava ela se poupando? Era um certo medo de sua capacidade, pequena ou grande. Talvez se contivesse por medo de não saber os limites de uma pessoa.
[..]
E quando notou que aceitava em pleno o amor, sua alegria foi tão grande que o coração lhe batia por todo o corpo, parecia-lhe que mil corações batiam-lhe nas profundezas de sua pessoa. Um direito-de-ser tomou-a, como se ela tivesse acabado de chorar ao nascer. Como? Como prolongar o nascimento pela vida inteira? Foi depressa ao espelho para saber quem era Loreley e para saber se podia ser amada. Mas assustou-se ao se ver.
Eu existo, estou vendo, mas quem sou eu? E ela teve medo. Parecia-lhe que sentindo menos dor, perdera a vantagem da dor como aviso e sintoma. Estivera incomparavelmente mais serena porém em grande perigo de vida: podia estar a um passo da morte da alma, a um passo desta já ter morrido, e sem o benefício de seu próprio aviso prévio.
de Clarice Lispector em Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres
ps. uma resposta ao teu pedido marta *
16:34
Naquele instante era apenas uma das mulheres do mundo, e não um eu, e integrava-se como para uma marcha eterna e sem objectivo de homens e mulheres em peregrinação para o Nada. O que era um Nada era exactamente o Tudo.
Havia desmistificado uma das poucas grandezas de que vivia.
Sabia que por enquanto doía muito e que depois ainda doeria mais pois sofreria a falta d’Aquele que, mesmo se não existisse, ela amava porque era uma célula dele. E talvez viesse a se salvar: porque a angústia era a incapacidade de enfim sentir dor. Pensou: eu nunca tive a minha dor. Por falta de grandeza, sofrera suportavelmente tudo o que nela havia a sofrer. Mas agora sozinha, amando um Deus que não existia mais, talvez tocasse enfim na dor que era dela. Angústia também era o medo de sentir enfim a dor.
de Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres