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actoúnico

May 31, 2008

08:57

“Não é uma vergonha, não é uma humilhação? - dir-me-eis, abanando as cabeças com desprezo. - Anseia pela vida e resolve as questões da vida com uma confusão lógica. Que impertinentes, que atrevidos são os seus despropósitos e, ao mesmo tempo, que medo tem! Profere disparates e fica contente; diz coisas atrevidas mas, ao dizê-las, está com medo e pede desculpas. Insiste em que não tem medo de nada, e ao mesmo tempo, procura com adulação a nossa opinião. Quer convencer-nos que range os dentes e, ao mesmo tempo, solta piadas para nos fazer rir. Sabe que as suas piadas não têm graça, mas, pelos vistos, está muito contente com a qualidade literária delas. Talvez realmente, lhe tenha acontecido sofrer, mas não tem respeito nenhum pelo seu próprio sofrimento. Está até dentro de uma certa verdade, mas não tem pudor; pela mais mesquinha das vaidades leva a sua verdade até à exibição, até à ignomínia, até à venda na feira.. Quer realmente dizer qualquer coisa, mas esconde por medo a sua última palavra, porque não tem coragem de dizê-la, apenas alardeia um descaramento cobarde. Gaba-se da consciência mas apenas vacila, porque, embora o seu intelecto funcione, o seu coração está obcurecido [..]”

de Fiódor Dostoiévski em Cadernos do Subterrâneo

May 26, 2008

17:32

[pen-tuh-men-toh] — noun
An underlying image in a painting, as an earlier painting, part of a painting, or original draft, that shows through, usually when the top layer of paint has become transparent with age.

May 7, 2008

15:39

O afogado é uma ilha à deriva, mas não falemos mais disto. Por mim, cansa-me o tempo que finge passar. Tudo esqueço dessa deriva.
No entanto, se gritares poderei ouvir-te. Lembrás-te-às de ti nesse instante.
Escuta o silvar da silhueta etérea dum bicho estelar.
O tempo é um resfolegar de vozes rasgando o corpo.
Quando a onda se espalha e escuma chia, ardem-me os olhos. Pensei em chorar, mas em vez disso fui buscar palavras que me entropeceram e consolaram.

[..]

Cansei-me de te sonhar. Cansei-me do sangue e da chuva, da memória dessas rotas dificeis.
Donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu.

[..]

Foi então que dei por mim a existir para além da tua morte, como se asfixiasse. Mas o passado não é senão um sonho. Uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.
Não vale a pena estar triste.
Todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar.

[..]

de Al Berto em Luminoso Afogado

May 3, 2008

09:54

Se disserem que também isso pode ser calculado pela tábua - o caos, as trevas, a maldição - e que a própria possibilidade de cálculo prévio fará parar tudo, e a razão vencerá - então o homem tornar-se-à louco por essa ocasião, só para não ficar subjugado à razão e poder continuar na sua! Tenho fé nisso, assumo a responsabilidade por isso, porque todo o assunto humano consiste, na realidade, em o homem provar a si mesmo, a cada instante, que é homem e não um pistão! À custa da própria pele, mas provar; por meio da selvajaria mas provar. Como não pecar, como não rejubilar por isso ainda não existir e por o desejo, por enquanto, depender sabe Deus ou o diabo de quê…
Gritais-me (se ainda vos dignardes gritar-me) que ninguém me priva da vontade; que tudo se tenta aqui organizar de tal maneira que a minha vontade, sozinha, pela própria vontade dela, coincida com os meus interesses normais, com as leis da natureza e com a aritmética.
- Eh, meus senhores, de que vontade própria se pode tratar quando as coisas chegam à tábua e à aritmética, quando o que está em voga é só o dois mais dois são quatro? Dois e dois são quatro sem a minha vontade. É assim que ela é, a minha vontade própria?

de Fiódor Dostoiévski em Cadernos do Subterrâneo

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