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actoúnico

June 24, 2009

06:28

ontem, olhou a casa. pensou como ainda assim era o sítio em que mais tinha sido feliz. à excepção da infância. mas na infância não sabemos nada e é fácil ser feliz. aquela casa, por mais invadida que estivesse pela sua tristeza, era ainda sua. era ainda o sítio onde mais queria estar, onde mais era.

às vezes olhava para ela e sentia-a anónima, sentia que qualquer pessoa poderia viver ali. outra pessoa poderia ser a dona daquela casa, noutro local, noutro tempo.

quando dizia aquela casa era àquela casa a que se referia, não às paredes mas às fotos, aos livros que povoavam a estante, às caixas de música, às esculturas africanas da família. o anonimato que persistia naquela casa ligava-o à dispersão dos objectos, dos interesses, como se ainda assim nada daquilo a capturasse ainda, nada a identificasse ainda. porque sentia que escapava aos próprios objectos que possuía.

não sentia isso quando entrava na casa de amigas, de l. em particular, aí os objectos eram-na. via-se a sua paixão por escultura, os objectos de sua mãe, o seu lado meio hippie entretanto ultrapassado ainda visível nos objectos escondidos por entre os livros. as suas fotos na parede, tudo ali lhe dizia quem aquela pessoa era.

não sentia o mesmo em sua casa. as paredes brancas. o quadro abstracto. e no entanto, esse mesmo desconforto era-lhe confortável. era apenas assim que saberia existir. talvez porque ainda não tivesse assentado na sua própria identidade, como se a todo o momento ela lhe escapasse e um dia pudesse ser isto e outro dia aquilo - sentia que consoante os momentos e a afirmação anterior, outra oposta lhe faria sentido, como se apenas o oposto de algo pudesse enriquecer o primeiro, pudesse dar algo de novo. concordar era morrer em certo sentido.

constantemente tentava a complementariedade, experimentava fatos à procura de um encaixe e não se sentia encaixar em nada. ou antes, em tudo encaixava um pouco mas em nada completamente.

hoje sentia-se assim, como se nada coubesse na sua mão, como se nada conseguisse agarrar. às vezes, a saudade era aterradora. uma saudade também ela anónima, de algo que nunca tivera. apenas pressentia a sua presença. um futuro possível? um agora algures? não sabia. tentava concentrar-se em estar. respirar devia bastar.

[um excerto]

June 23, 2009

07:36

gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

rui pires cabral
in ‘oráculos de cabeceira’, editora averno.

June 22, 2009

15:35

” nickdouglas:

Schenectady Synecdoche, New York
Everything is more complicated than you think.

You only see a tenth of what is true. There are a million little strings attached to every choice you make; you can destroy your life every time you choose.

But maybe you won’t know for twenty years. And you’ll never ever trace it to its source. And you only get one chance to play it out. Just try and figure out your own divorce.

And they say there is no fate, but there is: it’s what you create. Even though the world goes on for eons and eons, you are here for a fraction of a fraction of a second. Most of your time is spent being dead or not yet born.

But while alive, you wait in vain, wasting years, for a phone call or a letter or a look from someone or something to make it all right. And it never comes or it seems to but doesn’t really.

And so you spend your time in vague regret or vaguer hope for something good to come along. Something to make you feel connected, to make you feel whole, to make you feel loved.

And the truth is I’m so angry and the truth is I’m so fucking sad, and the truth is I’ve been so fucking hurt for so fucking long and for just as long have been pretending I’m ok, just to get along, just for, I don’t know why, maybe because no one wants to hear about my misery, because they have their own, and their own is too overwhelming to allow them to listen to or care about mine.

Well, fuck everybody.


from http://bagcoffee.tumblr.com/post/127827905/nickdouglas-schenectady-synecdoche-new-york

June 20, 2009

17:41

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa

June 19, 2009

01:19

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos

June 18, 2009

17:10

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

08:34

June 17, 2009

08:31

He’ll look at me and smile, I’ll understand
Then in a little while, He’ll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won’t say a word

Maybe I shall meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I’m sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be
My good news day

Billie Holiday

June 16, 2009

09:42

hoje,
cerro os dentes
e não espero nada.

um roedor sob a noite
aguarda o sono.

dentro do corpo
apenas -

com a sua ausência.

que bate à porta,
bate à porta.

June 14, 2009

08:00

Working through death’s pain

Last night I swear I felt your touch
Gentle and warm
The hair stood on my arms
How, how, how?

Show me the way, show me the way, show me the way
To shake a memory

I flipped my forelock, I twitched my withers, I reared and bucked
I could not put my rider aground
All these fine memories are fuckin’ me down

I dreamed it was a dream that you were gone
I woke up feeling so ripped by reality
Love is the king of the beasts
And when it gets hungry it must kill to eat
Love is the king of the beasts
A lion walking down city streets

I fell back asleep some time later on
And I dreamed the perfect song
It held all the answers, like hands laid on

I woke halfway and scribbled it down
And in the morning what I wrote I read
It was hard to read at first but here’s what it said

Eid ma clack shaw
Zupoven del ba
Mertepy ven seinur
Cofally ragdah

Show me the way, show me the way, show me the way
To shake a memory

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