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actoúnico

June 28, 2010

00:43

“Embora a vida espiritual que vagamente atribuíam a Efigénia parecesse afinal a se resumir ao facto dela não afirmar nem negar, em não participar de si própria, a tal ponto chegara a sua austeridade. A ser calada e clara, como sucedia a pessoas que nunca tinham precisado de pensar. Enquanto que em S. Geraldo começava-se a falar muito.”

A Cidade Sitiada, Clarice Lispector

June 25, 2010

21:03

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

http://www.youtube.com/watch?v=XV_iXZFPBCk&feature=player_embedded

June 22, 2010

09:15

Maria Gabriela Llansol em Herbais, anos 80


“Eu estou a meio caminho entre o interior e o exterior e o que devo contar, para ser compreensível,
é como se torna efectiva uma das hipóteses da passagem.
[..]
Em Herbais, só há a época de Herbais, o tempo é o actual, e a realidade não tem espessura, foi abandonada pelas cenas fulgor que eram o seu volume.”

Falcão no Punho, Maria Gabriela Llansol


(a voz de llansol)

June 19, 2010

21:06

“Foi já depois da atribuição do Nobel, em Lanzarote (repetia-se o mesmo cenário: mesa de trabalho, um sofá, uma fotografia - e uma janela voltada para o mar) que pude perceber o trabalho que acompanhou a escrita de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (que, juntamente com “Memorial do Convento” e “Ensaio sobre a Cegueira” constitui uma espécie de “trilogia do cânone”): uma agenda, dessas, antigas, domésticas, que Saramago tinha transformado num diário de Ricardo Reis escrito em Lisboa depois de regressar do Brasil, e que funcionaria como uma espécie de “segundo livro” que reuniria a parte estritamente documental do romance. Tudo tinha sido ali anotado, desde o preço do tabaco no Alentejo naquele ano, até à menção das crises diplomáticas que varriam a Europa e anunciavam o fascismo. ”

O que passa à eternidade é o talento, o trabalho e dedicação” por Francisco José Viegas, publicado no i a 19 de Junho de 2010, aquando da morte de José Saramago

June 16, 2010

11:21

Colhe de um corpo
o carvão verde
a sua música cereal moída moída.
Abre um corpo na partitura canta-o
enquanto se parte enquanto ficam
anos por contar enquanto ficam
anjos nas pálpebras
inconfessáveis.
Como se a manhã falhasse sempre.
Como se escolhesses o comboio que pára
em todas as estações
e valesse a pena gastar outra infância
para não chegar.

Catarina Nunes de Almeida

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