Se disserem que também isso pode ser calculado pela tábua - o caos, as trevas, a maldição - e que a própria possibilidade de cálculo prévio fará parar tudo, e a razão vencerá - então o homem tornar-se-à louco por essa ocasião, só para não ficar subjugado à razão e poder continuar na sua! Tenho fé nisso, assumo a responsabilidade por isso, porque todo o assunto humano consiste, na realidade, em o homem provar a si mesmo, a cada instante, que é homem e não um pistão! À custa da própria pele, mas provar; por meio da selvajaria mas provar. Como não pecar, como não rejubilar por isso ainda não existir e por o desejo, por enquanto, depender sabe Deus ou o diabo de quê…
Gritais-me (se ainda vos dignardes gritar-me) que ninguém me priva da vontade; que tudo se tenta aqui organizar de tal maneira que a minha vontade, sozinha, pela própria vontade dela, coincida com os meus interesses normais, com as leis da natureza e com a aritmética.
- Eh, meus senhores, de que vontade própria se pode tratar quando as coisas chegam à tábua e à aritmética, quando o que está em voga é só o dois mais dois são quatro? Dois e dois são quatro sem a minha vontade. É assim que ela é, a minha vontade própria?
de Fiódor Dostoiévski em Cadernos do Subterrâneo